Sinvaldo de Souza Gino

Nudez do destino

A Redução à Carne do Inelutável

O Destino, posto em epoché,  
suspende o manto da causalidade natural  e doa-se como fenômeno puro:  
nudez eidética, sem os adornos da atitude ingênua.   Não é fatum teológico, é Ereignis,  o acontecimento que me apropria antes que eu o constitua. Sua nudez é o “sempre já” do ser-no-mundo:  
desvelamento alétheia que retira o véu   só para revelar que não havia nada por baixo   senão o próprio ato de desvelar.   Estou lançado Geworfenheit em sua pele,   e toda veste que teço  projeto, cálculo, biografia  é resposta ao seu chamado mudo. Aqui, liberdade é o modo como existo   a nudez que me precede:   cuidar do desvelado,  
habitar a clareira sem tentar cobri-la. O Real Desamparado de Significante O Destino comparece nu porque o Simbólico falhou:   não há significante que o recubra sem resto.   É o Real em sua obscenidade estrutural,   o trauma que retorna por não se inscrever, 
a tuché que fura a rede da automaton. Tentamos vesti-lo com o Nome do Pai,  
com o mito individual do neurótico,  
com a fantasia que diz: “era pra ser”.  
Mas sua nudez é o gozo não significantizável   que denuncia a impostura de todo sentido. O sujeito, dividido, encontra-se aí  no ponto em que o véu rasga:   entre o eu que narra e o isso que acontece.   Assumir a nudez do Destino é atravessar a fantasia,  
suportar que não há Outro do Outro,  
que o roteiro estava em branco  
e nós o preenchemos de sintoma. O Grau Zero do Enredo. O Destino é o texto antes da escritura:  grau zero, página sem retórica,  neutro que precede o estilo.  
Sua nudez é a ausência de autor,  
o desastre blanchotiano que já sempre aconteceu  e por isso não pode ser narrado, só bordejado. Todo romance que escrevemos sobre ele  é suplemento derridiano:  acrescenta para cobrir uma falta  que ele mesmo inventa.   A morte do autor é o parto do Destino:   sem deus, sem pai, o texto age sozinho,  e nós, leitores-escritores,   somos efeitos de sua nudez, não causas. O ponto final é uma mentira piedosa.   O Destino continua, nu, no branco entre os capítulos,   na entrelinha que nenhum grifo alcança,   como literatura que se recusa a ser literatura.