A Redução à Carne do Inelutável
O Destino, posto em epoché,
suspende o manto da causalidade natural e doa-se como fenômeno puro:
nudez eidética, sem os adornos da atitude ingênua. Não é fatum teológico, é Ereignis, o acontecimento que me apropria antes que eu o constitua. Sua nudez é o “sempre já” do ser-no-mundo:
desvelamento alétheia que retira o véu só para revelar que não havia nada por baixo senão o próprio ato de desvelar. Estou lançado Geworfenheit em sua pele, e toda veste que teço projeto, cálculo, biografia é resposta ao seu chamado mudo. Aqui, liberdade é o modo como existo a nudez que me precede: cuidar do desvelado,
habitar a clareira sem tentar cobri-la. O Real Desamparado de Significante O Destino comparece nu porque o Simbólico falhou: não há significante que o recubra sem resto. É o Real em sua obscenidade estrutural, o trauma que retorna por não se inscrever,
a tuché que fura a rede da automaton. Tentamos vesti-lo com o Nome do Pai,
com o mito individual do neurótico,
com a fantasia que diz: “era pra ser”.
Mas sua nudez é o gozo não significantizável que denuncia a impostura de todo sentido. O sujeito, dividido, encontra-se aí no ponto em que o véu rasga: entre o eu que narra e o isso que acontece. Assumir a nudez do Destino é atravessar a fantasia,
suportar que não há Outro do Outro,
que o roteiro estava em branco
e nós o preenchemos de sintoma. O Grau Zero do Enredo. O Destino é o texto antes da escritura: grau zero, página sem retórica, neutro que precede o estilo.
Sua nudez é a ausência de autor,
o desastre blanchotiano que já sempre aconteceu e por isso não pode ser narrado, só bordejado. Todo romance que escrevemos sobre ele é suplemento derridiano: acrescenta para cobrir uma falta que ele mesmo inventa. A morte do autor é o parto do Destino: sem deus, sem pai, o texto age sozinho, e nós, leitores-escritores, somos efeitos de sua nudez, não causas. O ponto final é uma mentira piedosa. O Destino continua, nu, no branco entre os capítulos, na entrelinha que nenhum grifo alcança, como literatura que se recusa a ser literatura.