Era uma vez, um gatinho preto, com olhos da cor do pôr do sol. Seu nome era Fred: gordinho, fofinho, carinhoso, sempre muito adorável. Fred era um gatinho animado, que amava bastante seus amigos felinos, mas havia um pequeno detalhe: Fred, embora animado, era triste por dentro. Para esconder sua dor, ele chamava mais atenção do que o de costume, fazia mais bagunça do que o de costume e, principalmente, quando seus donos estavam tristes, fazia de tudo para fazê-los sorrir e até mesmo distraí-los da dor.
Fred não sabia, mas a dor incompreensível que ele sentia iria piorar. Fred tinha o costume de se agarrar em algo quando seu consciente queria desistir, e sempre funcionava. Fred se agarrava em pessoas de quem gosta e em músicas. Porém, com sua piora, as pessoas e a música, que Fred tanto amava, de nada estavam adiantando. Nada o fazia querer ficar, querer continuar; nada dava a Fred um motivo para ficar, uma esperança de um bom futuro, embora ele queira um.
Fred sempre foi um gatinho acolhedor, um gatinho que ouvia seus amigos felinos desabafando e nunca os julgava; pelo contrário, sempre esteve disponível para fazer companhia para eles. Quando a dor de Fred piorava, ele se recolhia, se isolava, e, se um amigo perguntasse o que estava acontecendo, sorrindo, ele falava que não era nada e que ia passar. Fred falava sabendo que não iria passar, que talvez nunca fosse passar.
Com o passar dos anos, a dor consumia Fred como uma flor morrendo, e, cada vez mais, Fred se apagava, se distanciava, se machucava. Mas Fred, mesmo cansado da vida, nunca cansava de ajudar quem fosse em busca de seu colo. Fred começou a desejar um colo também: um colo silencioso, um colo acolhedor, um colo onde Fred pudesse ser fraco. Ele desejava um, ao mesmo tempo que tinha medo de parecer carente ou desesperado por alguém.
Mas o que nenhum outro felino sabia era que Fred nunca soube lidar com suas dores, por nunca ter tempo para senti-las. Fred nunca teve tempo para entender suas dores. Algo sempre acontecia: uma facada era dada em seu peito enquanto ele precisava ser firme por ter um compromisso muito importante e, com o peito sangrando, Fred ia para o compromisso sem que ninguém percebesse seu peito jorrando sangue, jorrando dor que nem ele entendia.
Fred não tinha tempo para sentir sua dor. Quando ele finalmente pensava ter um tempo para se entender, um amigo chegava e desabafava; Fred ajudava, pois sabia que era disso que o amigo precisava. Como ficava Fred? À noite, Fred chorava, e, na mesma noite, Fred ouvia desabafos de outros felinos. No dia seguinte, pensando em ter um dia para entender o que sente, Fred escuta mais um desabafo.
Fred é um gatinho com dor, um gatinho que cuida de todos os outros gatinhos e até de seu dono. Mas quem cuida de Fred?