Poesia Abandonada

A Labirintite do Ponteiro

 

O ponteiro dos segundos, cansado daquela rotina circular, resolveu que o mundo não precisava tanto assim de marchar.

Deu um passo em falso no número três, sentiu um calafrio, uma tontura de vez. O tique esqueceu de encontrar o taque, e o tempo, coitado, sofreu um baque.

A doze era longe, a seis era um abismo, entregou-se o coitado a um estranho laconismo. Viu o ponteiro das horas, pesado e lento, e tentou imitá-lo por um breve momento.

Mas a cabeça girou, a mola afrouxou, e o pobre coitado no \"cinco\" estancou. Olhou para o centro, pro pino central: — \"Viver em círculos é um tédio fatal!\"

Embriagado de voltas, sem rumo ou prumo, gastou seus minutos em puro consumo. Agora ele oscila, num vai e vem torto, fazendo do tempo um imenso conforto:

Pois quem vive tonto, no giro constante, faz de cada segundo um eterno instante.