Sezar Kosta

O OFÍCIO DE SEGURAR O VENTO POR AMOR

Eu aprendi teu silêncio antes da tua voz falhar.

Foi numa tarde espessa, dessas em que o ar pesa nos ombros

e até a luz parece pedir desculpas por existir.

 

Você estava ali,

com os olhos tropeçando em pensamentos

que eu não podia ver, mas sentia

como quem percebe a chuva antes do primeiro trovão.

 

Não me pediu nada —

e talvez fosse esse o pedido.

 

Havia em você uma espécie de queda contida,

um desmoronar em câmera lenta,

como se o mundo tivesse desaprendido

a te sustentar.

 

E eu, que nunca fui herói de coisa alguma,

me vi inventando forças

onde antes só havia hesitação.

 

Falei do teu riso

como quem reacende uma chama esquecida,

lembrei de coisas que você já tinha vencido

e que, naquele instante,

pareciam nunca ter existido.

 

Você negou, claro.

Disse que eu estava enganado,

que eu não via direito,

que tudo em você era menos do que eu dizia.

 

Mas eu permaneci.

 

Há um tipo de verdade

que não se discute —

se sustenta.

 

E eu sustentei.

 

Segurei tuas mãos

como quem segura uma corda prestes a escapar do abismo,

e puxei — não com força,

mas com insistência.

 

Porque às vezes não é sobre convencer,

é sobre não soltar.

 

Te ofereci pequenos gestos

como quem espalha migalhas de luz

num caminho escuro demais para grandes soluções.

 

E evitei, com cuidado quase sagrado,

qualquer palavra que pudesse aumentar

o peso que você já carregava sozinha.

 

Naquela noite,

quando enfim teus olhos voltaram

a reconhecer o mundo sem medo,

eu entendi —

 

amar alguém

não é apenas estar ao lado,

mas ficar de pé

quando o outro já começou a cair.

 

E, se preciso,

ser a teimosia da esperança

contra tudo aquilo que insiste em desistir.