Eu aprendi teu silêncio antes da tua voz falhar.
Foi numa tarde espessa, dessas em que o ar pesa nos ombros
e até a luz parece pedir desculpas por existir.
Você estava ali,
com os olhos tropeçando em pensamentos
que eu não podia ver, mas sentia
como quem percebe a chuva antes do primeiro trovão.
Não me pediu nada —
e talvez fosse esse o pedido.
Havia em você uma espécie de queda contida,
um desmoronar em câmera lenta,
como se o mundo tivesse desaprendido
a te sustentar.
E eu, que nunca fui herói de coisa alguma,
me vi inventando forças
onde antes só havia hesitação.
Falei do teu riso
como quem reacende uma chama esquecida,
lembrei de coisas que você já tinha vencido
e que, naquele instante,
pareciam nunca ter existido.
Você negou, claro.
Disse que eu estava enganado,
que eu não via direito,
que tudo em você era menos do que eu dizia.
Mas eu permaneci.
Há um tipo de verdade
que não se discute —
se sustenta.
E eu sustentei.
Segurei tuas mãos
como quem segura uma corda prestes a escapar do abismo,
e puxei — não com força,
mas com insistência.
Porque às vezes não é sobre convencer,
é sobre não soltar.
Te ofereci pequenos gestos
como quem espalha migalhas de luz
num caminho escuro demais para grandes soluções.
E evitei, com cuidado quase sagrado,
qualquer palavra que pudesse aumentar
o peso que você já carregava sozinha.
Naquela noite,
quando enfim teus olhos voltaram
a reconhecer o mundo sem medo,
eu entendi —
amar alguém
não é apenas estar ao lado,
mas ficar de pé
quando o outro já começou a cair.
E, se preciso,
ser a teimosia da esperança
contra tudo aquilo que insiste em desistir.