Gilberto Lima

No Calor do SilĂȘncio

 

Eu te vejo,
E o ar parece mudar de peso.
Há um silêncio quente entre nós,
Uma espécie de vertigem mansa
Que só o teu corpo acende no meu.

Já pensei em você no meio do dia,
Como quem é tomado por um incêndio discreto,
lento, crescente,
Dessas febres que começam baixinho
E, quando se percebe, já dominaram tudo.

Quero chegar perto sem pressa,
Deixar meus olhos aprenderem teus contornos
Antes mesmo que minhas mãos ousem dizer qualquer coisa.
Quero me inclinar ao teu ouvido
E deixar em voz baixa aquilo que meu corpo inteiro já confessa:
Que te desejo.

Minhas mãos começam leves,
Quase reverentes,
Como se tocassem um segredo.
Deslizam pelos teus braços,
Sobem devagar,
Repousam no teu rosto
Como quem reconhece um lugar sonhado.

Então eu te puxo para mim,
E por um instante
O mundo se resume ao calor da tua pele
e à distância nenhuma entre o teu corpo e o meu.

Minha boca encontra a tua
num beijo demorado,
denso,
feito de sede e ternura.
Depois desço devagar,
Pelo canto dos teus lábios,
Pela curva do teu rosto,
Pela pulsação viva do teu pescoço,
Como quem escuta com a boca
A linguagem secreta do desejo.

Quero te beijar como quem percorre um poema:
sem pressa,
sem ruído,
Sabendo que cada pausa também diz.
Quero guardar teu arrepio na memória das mãos,
Teu suspiro no fundo do peito,
Teu nome tremendo no meu silêncio.

Beijo tua testa como quem promete,
teus olhos fechados como quem agradece,
Tua boca como quem se perde.
E desço na cadência exata
Em que o carinho se mistura ao fogo,
Em que a delicadeza já não consegue esconder
a fome.

Há em você uma beleza que desarma
e uma força mansa que me chama.
Quando te tenho perto,
Cada gesto teu parece acender outra noite dentro de mim.
E eu me rendo, inteiro,
a essa vontade de te sentir
Mais perto,
mais funda,
Mais minha no instante.

Te deito devagar no tempo do meu encanto,
Como quem deposita uma joia rara
Sobre a luz mais bonita da casa.
E volto à tua boca,
Porque há beijos que não terminam:
apenas mudam de intensidade,
aprofundam o abismo,
alargam a chama.

Quando enfim nossos corpos se entendem,
não há pressa que sobreviva por muito tempo.
Há começo suave,
entrega,
vertigem,
e depois esse incêndio bonito
Que cresce sem pedir licença
Até fazer de nós dois
Uma só respiração desfeita.

Quero ouvir teu nome nascer em mim,
Quero sentir teu corpo responder ao meu
Como maré sob lua cheia.
Quero esse instante em que o desejo transborda
E já não cabe no corpo,
Só no arrepio,
Só no gemido,
Só no abandono.

Porque pensar em você
Já é febre.
Mas ter você assim,
tão perto,
tão viva entre meus braços,
É sempre mais bonito
e mais devastador
Do que tudo que a imaginação ousou sonhar.