joaquim cesario de mello

CEMITÉRIO DOS ONTENS

 

Ontem enterrei o ontem:

uma frase interrompida

o gesto que não fiz

e a tarde que prometeu ficar

e não ficou

 

Ontem não resistiu à madrugada:

o silêncio mais longo

a poeira assentada nas palavras

o relógio respirando errado

 

No bolso do ontem encontrei

um bilhete sem data

e nele estava escrito

“foi quase”

 

Que a memória lhe seja justa

o ontem merece o esquecimento

que só o hoje pode conceder