#\"Geografias do Pó e do Direito\"
Autor: Claudio Gia
Macau, RN, 14 de abril de 2026
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O grão escuro, mapeado em latifúndio de aroma
— Brasil, atlas da torra e da suor —
desce à xícara como um sol econômico.
Mas o dia não cabe na moagem.
Há uma outra colheita:
a da sala de aula sem porta trancada,
onde o corpo diferente não é exílio,
e a lousa escreve com giz de acessibilidade.
Há o campo que ensina o verbo plantar
antes do agronegócio dizimar a vogal.
Saberes rurais: uma sintaxe de enxada e chuva,
contra o silêncio das grades curriculares.
E há a mão do técnico,
que não empunha bisturi mas segura a vida
no corredor de um hospital sem verba.
Neurocirurgião do improvável —
onde o osso se parte, ele costura o destino.
Ludovina desce do hagiológio
com três mártires romanos.
Não pregam fé: pregam a persistência
de quem foi queimado por ser outro.
Na Dinamarca, Mil novecentos e oito
o voto feminino rasga um átomo de céu.
Na contramão, o Brasil ainda amassa
mulheres em seu cíclico engenho.
Quatorze de abril.
Data que não é festa, mas trincheira.
Dia em que o café esfria
e a luta, essa, continua quente.