Rian Vitor

Ciclo de Retorno

Eu não quero ir hoje,

mas talvez eu queira,

ou eu precise ir.

Necessito não estar aqui.

Preciso fazer algo pensando em mim,

mas fazer isso

só me machucaria.

Pelo menos

eu teria a chance

de querer ser machucado.

É triste dizer

que a única coisa

que eu possa fazer a mim mesmo

seja sangrento.

Talvez eu tenha me acostumado

com a dor intensa.

Só quando sinto

o sangue escorrendo

é que eu me sinto

eu mesmo.

Eu sei

que esse sentimento é passageiro,

mas é o que eu mais sinto —

como se fosse

a maior parte de mim

tentando me chamar de volta para ela,

mas impedida

pelas paredes de remédios

que me trazem

para mais um dia.

Eu tento me distrair

ao máximo

para que a morte

pare de me observar.

Às vezes funciona:

ela fica tão entediada

que desaparece.

Mas sempre retorna.

Ela sabe

que o meu equilíbrio

não dura muito.

Estamos em uma luta constante,

um ciclo infinito —

ou talvez finito —

mas essa melancolia

eu sei

que é eterna.