Nos primeiros passos,
os pezinhos encardidos,
os joelhos machucados,
a busca do equilíbrio.
Mamãe e papai estavam
quase sempre a aparar,
mas cair é inevitável.
Papai dizia: “Não olhe,
senão ele vai chorar.”
Mamãe, incansável,
dava um abraço.
Um pulo depois,
e não tinha mais tanto consolo,
e a roda girou mais rápido.
Antes facultativos,
agora os obrigatórios
calçados ditam o ritmo.
Passos entre
casa, praça, escola,
ginásio, piscina, psicóloga,
a agenda com meus horários.
Os primeiros testes,
tudo era prova para se passar,
mas os tênis eram mais largos
e o relógio estava em outro braço.
E tudo prossegue
com bolo e vela.
Faz-se 18 e ganha:
cinto, relógio e sapato.
Um incentivo, claro, para:
o emprego a procurar,
os bens a acumular,
a companhia a encontrar,
os filhos para criar.
Tudo que se calça
fica mais justo, apertado.
Os ponteiros se aceleram,
as urgências - erroneamente -
no plural.
E logo chegamos
ao limite do corpo,
do calendário.
A alma pede sandálias.
No poente dos nossos dias,
as vésperas assustam,
contudo elas sempre
foram cadarços,
laços feitos
para serem desfeitos.
Não adianta se agitar,
sabemos que, em seguida,
estaremos descalços,
desta vida ligeira.
E os pés, tão logo,
estarão prontos,
mais uma vez,
para serem
encardidos…