O relógio não mente,
meu peito pulsa forte,
mas a respiração com um ritmo lento.
Minha mala aberta no chão do quarto
separo, guardo e levo o que sobra de mim
depois de meses da rotina e pensamentos que não tinha fim.
Volto para o lugar onde meu nome é certo.
Onde ser só filha, neta e sujeito
não são conceitos,
é o cheiro de café passado devagar,
mãos da minha avó sovando a massa
e o pão que cresce enquanto o mundo lá fora desaba.
Preciso pisar na grama sem pressa.
Deixar que o chão me lembre
que existo antes de qualquer batalha.
E correr sozinha na pista enquanto observo a paisagem e o sol indo embora.
Na cozinha pequena,
a xícara quente contra o peito frio.
Ela, minha avó, não pergunta nada.
Só divide o silêncio comigo,
como quem sabe que voltar
não é fugir,
é reconhecer e reconectar o próprio eixo.
A insônia ainda espreita,
mas sei que lá, entre o fermento e o afeto,
sempre aprendo de novo,
e que descansar também é um verbo.