Anna Gonçalves

Duas da manhã

O relógio não mente,

meu peito pulsa forte,  

mas a respiração com um ritmo lento. 

Minha mala aberta no chão do quarto  

separo, guardo e levo o que sobra de mim  

depois de meses da rotina e pensamentos  que não tinha fim.  

 

Volto para o lugar onde meu nome é certo.  

Onde ser só filha, neta e sujeito

não são conceitos,  

é o cheiro de café passado devagar,  

mãos da minha avó sovando a massa  

e o pão que cresce enquanto o mundo lá fora desaba.  

 

Preciso pisar na grama sem pressa.  

Deixar que o chão me lembre  

que existo antes de qualquer batalha.  

E correr sozinha na pista enquanto observo a paisagem e o sol indo embora.

 

Na cozinha pequena,  

a xícara quente contra o peito frio.  

Ela, minha avó, não pergunta nada.  

Só divide o silêncio comigo,  

como quem sabe que voltar  

não é fugir,  

é reconhecer e reconectar o próprio eixo.  

 

A insônia ainda espreita,  

mas sei que lá, entre o fermento e o afeto,  

sempre aprendo de novo, 

e que descansar também é um verbo.