Há pessoas que não ouvem música.
Elas entram nela e trancam a porta.
Os fones são túneis circulares
que levam direto para dentro do peito,
onde o mundo perde sinal
e a dor aprende a falar em ondas.
As canções não começam:
elas despertam,
como memórias que nunca aconteceram
mas doem do mesmo jeito.
O baixo reorganiza os órgãos,
o refrão muda o eixo do dia,
e a bateria marca o tempo
que o relógio se recusa a cumprir.
Quando a realidade ameaça invadir,
essas pessoas aumentam o volume
até a existência virar ruído branco
e o pensamento, um animal domesticado.
A música não cura.
Ela desobedece.
Distorce o caos até caber
dentro de um corpo humano.
E ali, entre notas imperfeitas,
alguém aprende a respirar
num idioma que não exige explicações.