Francisco Claudio Claudio Gia

#A Medida da Humanidade

#A Medida da Humanidade

Autor: Claudio Gia
Local: Macau, RN, 09 de abril de 2026

Há pouco, uma repórter da Rede Globo, ao descrever a cápsula da missão Artemis II que segue viagem à Lua, listou sua tripulação com uma naturalidade que passa despercebida à maioria: “dentro da cápsula estava um homem, um negro e uma mulher”. Três corpos. Três descrições. Uma delas marcada pela cor, outra pelo gênero, a terceira pela suposta neutralidade do “homem” — que, no contexto, sabemos ser branco.

Até onde chega a discriminação? Até o infinito da linguagem que nos escorre pelos dedos.

O que veremos a seguir não é uma reportagem comum. É um experimento mental, com a licença poética dos fatos.

Imagine, se lhe for possível, que um homem, um negro e uma mulher não fossem humanos. Imagine que fossem três entidades — três formas de existência tão distintas da nossa quanto a água o é do fogo.

O homem, por exemplo, pudesse ser uma rocha. Firme, imóvel, com séculos de silêncio acumulado. O negro, uma noite sem lua — vasta, profunda, anterior a qualquer calendário. E a mulher, um rio que nunca repete o mesmo curso, mas que sempre encontra o mar.

Agora, repare: mesmo não sendo humanos, a discriminação os seguiria.

A rocha seria chamada de fria e insensível. Sua dureza, interpretada como falta de afeto. Sua permanência, como estagnação. Ninguém perguntaria à rocha o que ela sente ao ser cortada para virar calçada.

A noite, por sua vez, seria temida. Escuridão viraria sinônimo de perigo, de vazio, de ausência de Deus. As estrelas que nela habitam seriam ignoradas. Seu silêncio, confundido com ameaça. E o amanhecer, sempre celebrado, seria seu algoz — a prova de que a luz deve vencer.

E o rio? Ah, o rio seria chamado de instável, de imprevisível. Sua força de moldar pedras seria vista como erosão, não como criação. Seu fluxo, incessantemente contido por barragens, seria domesticado sob a justificativa da ordem. E quando secasse, diriam: “Viu? Sempre foi volúvel”.

Pois a discriminação não exige humanidade. Exige apenas um olhar que transforma a diferença em hierarquia. Exige a arrogância de quem mede o outro com a própria régua.

A repórter não teve má intenção. Talvez nem tenha percebido o que sua frase revelava: que, em pleno voo rumo à Lua — o lugar onde a humanidade vai para se ver espelhada no vazio —, ainda nomeamos os outros pela ausência. O homem é o padrão. O negro é a cor. A mulher é o gênero. E o branco? Não precisa ser dito.

E se rocha, noite e rio fossem, afinal, humanos? Homem, negro e mulher. A pergunta não é se eles sofrem. A pergunta é: por que ainda precisamos imaginar que não são da nossa espécie para sentir que a dor deles é real?

A Lua que nos espera é a mesma que sempre viu a Terra girar. Lá de cima, ela não distingue tons de pele nem formas de desejo. Mas aqui embaixo, até na nave mais alta, a linguagem ainda pesa.

Boa noite.

Claudio Gia
Macau, RN — 09 de abril de 2026

(1) Os astronautas da missão Artemis II, que partiram a bordo da espaçonave Orion rumo à Lua em abril de 2026, são Reid Wiseman (comandante), Victor Glover (piloto), Christina Koch (especialista de missão) e Jeremy Hansen (especialista de missão, da Agência Espacial Canadense). Glover é o primeiro negro a viajar ao espaço profundo e Koch é a primeira mulher a ir à Lua. A lista oficial não inclui nenhum tripulante chamado genericamente de “um homem”. A nomeação revela, assim, o padrão silencioso que insiste em se colocar como universal — mesmo a 400 mil quilômetros da Terra. Com exceção do comandante e do astronauta canadense, os nomes são acompanhados de marcadores históricos, que a fala da repórter, involuntariamente, apagou.