Infortúnio da mente, audaz e vã,
Que em traços de escarlate te vestiu,
Pois desde que essa imagem me invadiu,
Perdi o sono e a paz da manhã.
Não devera eu, em transe ou desvario,
Imaginar-te em seda e renda ardente,
Onde o rubro destaca, impunemente,
O que a memória guarda em calafrio.
Os seios, de uma brancura de alabastro,
Pulsam sob o cetim que os mal tolhe,
Cumes onde o desejo se recolhe
E o toque deixa um rútilo rastro.
Tua boca, em carmim, portal de espasmo,
Convida ao erro e ao verso mais profundo,
Enquanto as coxas — colunas do mundo —
Guardam o segredo de um doce pasmo.
E nos vales úmidos, de sombra e brio,
Onde a natureza oculta o seu tesouro,
Meu pensamento, em busca do decoro,
Naufraga em águas de um febril rio.
Oh, visão nefasta e soberana!
Melhor fora o silêncio e o véu da luz,
Do que esse escarlate que me seduz
E à própria alma, em desejo, profana.