Camila Heloise dos Santos

Nem tudo o que está enterrado está morto

Hoje eu não sei o que sinto 

sei só que rasga.

Arde como ferida aberta,

sufoca como mãos no meu pescoço.

 

Enterrei tudo.

Cavei fundo, fundo demais,

com as próprias mãos,

até sangrar.

 

Mas nada morreu.

 

O que eu enterrei respira.

Se debate.

Grita lá de baixo,

arranhando o caixão,

rasgando o silêncio,

implorando para sair.

 

E eu ouço.

Eu sempre ouço.

 

Será que sentimentos morrem?

Ou apodrecem vivos,

exalando dor,

até virarem assombração dentro da gente?

 

Porque você volta 

não como lembrança,

mas como presença.

Quente. Colada na minha pele.

 

Hoje estou sozinha.

Nenhuma novidade.

Mas não vazia.

 

Vazia seria um alívio.

 

Eu estou cheia 

cheia de um grito preso na garganta,

de um choro que sufoca meus pulmões,

de você.

 

Do seu cheiro.

Da sua ausência que pesa

mais do que qualquer presença 

 

Tem algo em mim que ainda te chama,

mesmo sabendo

que ninguém responde

do outro lado.

 

E ainda assim,

Sendo o mundo,

meu amargo amor,

Um lugar horrível,

 

É só você,

 

com seu calor,

sua doçura,

sua leveza,

que poderia

me salvar.

 

Ciente disso,

já sou uma alma

condenada.

 

Condenada a viver

Com fantasmas

de um amor possível 

que tão pouco existiu,

mas nunca deixou de doer.