Lembro-me de cada copo que bebi
e de cada balcão a que me sentei,
das bebidas que só vi —
nunca bebi o que não paguei…
não conta o meu olhar
nem quanto assim bebi
não tem que contar
o que com os lábios não toquei
o que na boca não senti
lembro-me de cada banco em cada bar,
cada música que ouvi tocar,
e de cada garrafa que despejei…
Entornado dentro de mim,
trago cada amor que então vivi —
cada copo que emborquei…
não conta o meu olhar
nem quanto assim bebi
não tem que contar
o que com os lábios não toquei
o que na boca não senti
lembro-me de cada expressão
no teu rosto
lembro-me do sorriso maroto —
quando me desafiavas dançando…
e do eterno desafio
do peso do bolso vazio
nessa bebida com que vou sonhando
cada curva do teu corpo
nas minhas névoas se insinuando
Lembro-me que —
por detrás das bolhas trocistas —
umas cócegas esquisitas,
abriam-te nos lábios um sorriso…
Atrevidas anarquistas,
enquanto iam — equilibristas —
pelo teu nariz saltitando…
E da leve mordida no teu lábio,
sedutora,
atrevida,
com que me ias desafiando…
não conta o meu olhar
nem quanto assim bebi…