tiagocristão

Anatomia

Fiz em mim uma anatomia,
encontrei órgãos cheios de teias,
mal-usados, maltrapilhos.
Fiquei assustado, meio angustiado.
Como vivo, respiro e falo,
se está tudo parado?
O coração, porém, estava a todo vapor.
Batia cansado, mas sem vacilar em sua função.
E batia sem descanso,
como quem fosse o responsável pela minha saúde,
enquanto o restante, preguiçoso,
seguia sem ação ou virtude.
Percebi que não vivo deles;
se dependesse, com certeza estaria em um caixão,
frio como gelo,
sem nada — muito menos paixão.
Será que é por isso
que, quando sinto, dói o peito?
Se amo, perco o jeito
e almejo tudo isso de um modo visceral.
Se os sentimentos vêm do coração, não sei.
Todavia, sei que, em mim,
é a única coisa que funciona:
aquecendo-me e mantendo-me consciente.
Do cérebro, roubou essa função.
Não há quem me instrua
ou por mim pense,
que me diga se está certo ou errado,
que me alerte sobre meus atos.
Por causa disso, cheguei a uma conclusão:
vivo inteiramente de coração.