Charles Araújo

PORNOGRAFIA DA EXISTÊNCIA

PORNOGRAFIA DA EXISTÊNCIA 

 

A vida vadia,vadiava entre idas e vindas,

rota, repetida,um corpo gasto de mundo.

Fudida não de prazer,

mas de excesso, de uso,

de tudo o que se aceita

e depois a carne cobra .

Em prestações que nunca quitam,

com juros de silêncio

e memórias ruminantes

morrendo aos poucos

em cada gesto automático,

em cada escolha parcelada

no crédito podre da consciência.

 

Gemia não de gozo,

mas de atrito com o vazio.

Ardia como carne exposta ao tempo,

sem pele, sem defesa, sem perdão.

E o tempo escorria

lento, viscoso,

como contrato assinado às cegas,

sem cláusula de saída.

 

Tudo era toque,mas nada era encontro.

Tudo era fome,mas nada alimentava.

Porque a vida não perdoa:

ela cobra.

Cobra mesmo com atraso,

Mas com correção,

com a precisão fria

de quem nunca esquece.

E devolve :

em carne, em culpa, em memória 

tudo o que você plantou distraído,

tudo o que você chamou de hábito,

tudo o que você chamou de destino

quando já era covardia demais

chamar de escolha.

 

No fim, não havia crime,

nem inocência. Só a dívida aberta do existir,

e o homem nu,negativado na própria alma,

executado

pelas consequências dos próprios atos.