PORNOGRAFIA DA EXISTÊNCIA
A vida vadia,vadiava entre idas e vindas,
rota, repetida,um corpo gasto de mundo.
Fudida não de prazer,
mas de excesso, de uso,
de tudo o que se aceita
e depois a carne cobra .
Em prestações que nunca quitam,
com juros de silêncio
e memórias ruminantes
morrendo aos poucos
em cada gesto automático,
em cada escolha parcelada
no crédito podre da consciência.
Gemia não de gozo,
mas de atrito com o vazio.
Ardia como carne exposta ao tempo,
sem pele, sem defesa, sem perdão.
E o tempo escorria
lento, viscoso,
como contrato assinado às cegas,
sem cláusula de saída.
Tudo era toque,mas nada era encontro.
Tudo era fome,mas nada alimentava.
Porque a vida não perdoa:
ela cobra.
Cobra mesmo com atraso,
Mas com correção,
com a precisão fria
de quem nunca esquece.
E devolve :
em carne, em culpa, em memória
tudo o que você plantou distraído,
tudo o que você chamou de hábito,
tudo o que você chamou de destino
quando já era covardia demais
chamar de escolha.
No fim, não havia crime,
nem inocência. Só a dívida aberta do existir,
e o homem nu,negativado na própria alma,
executado
pelas consequências dos próprios atos.