Anna Gonçalves

O Reverso do Fim

Eu disse que ia idealizar e eu mesmo inventar o fim,
que rasgaria as palavras e arrancaria você de mim.
Tentei engolir a seco a experiência, o vivido e o sentido,
convencendo meus versos de que o tempo estava perdido.
Virei as costas, apressei o passo, quis seguir meus dias,
mas quem eu quero enganar com essas falsas alforrias?

Por fora, sustento a pose, o olhar firme e o prumo,
mas por dentro é o caos que dita o meu rumo.
Tento desencanar, mas nos silêncios mais inquietos,
você volta a refletir nos meus sonhos mais secretos.
Evito a cidade, as ruas e os cantos de costume,
com medo de que o ar ainda guarde o perfume.

Refutei o frio na barriga, chamei de mero detalhe,
pedi que a razão vencesse e que o corpo não falhasse.
Disse que amor era mais que um toque ou um momento,
mas a lógica se perde quando te encontro aqui dentro.
É uma luta perdida, um cansaço que o peito consome,
fingindo que sigo em frente, enquanto o corpo grita e me consome.