Fábio Brendon

QUANDO EU FOR SÓ CADAVERINA

Quando eu for só silêncio e poeira,
um nome apagado na lápide inteira,
e o tempo, com passos tão frios e certos,
calar os meus sonhos já longos, desertos…

 

Quando a carne, outrora vaidosa e vaivém,
for só banquete de vermes também,
e a alma, se houver, flutuar na neblina,
restará no ar minha essência em ruína.

 

O perfume da morte, pungente, discreto,
sem rosas, sem velas, sem canto, sem teto,
será meu legado, meu rastro final,
um eco químico, quase imortal.

 

Cadê o sujeito que sonhou ser eterno?
Virou só nutriente do chão mais moderno.
Cadê o olhar que buscava sentido?
Sumiu dissolvido, fedendo ao olvido.

 

Cadaverina será meu perfume,
sem “Chanel”, sem glamour, sem queixume.
Talvez até alguém diga: \"Que fedor!\"
Mal sabe que fui feito de amor…

 

Mas, a minha decomposição que ora declina,
serei útil, talvez para uma flor pequenina,
ou um fungo que dance no meu coração,
com mais leveza do que tive em vão.

 

E os vivos, tão cheios de urgência e rotina,
passarão por mim, essência da ruína.
Não serei lembrança, nem verso, nem sina,
só a química fria… da cadaverina.

 

Mas quem sabe, no chão, entre musgos e folhas,
brotem flores das partes que um dia foram minhas escolhas.
Talvez, na podridão, haja vida que ensina:
até no fim, há beleza…na cadaverina.