Francisco Queiroz
Em vias de braseiro
O papel é magnético,
me atrai quase sempre,
como se fosse um impulso
que me leva a escrever.
Quando começo,
sinto que dou vida
a algo momentâneo,
como uma fumaça,
subindo e variando:
lago, cavalo, odalisca
como uma miragem
formada pelo calor.
Dançando
vai nascendo,
frágil, receptiva
no papel pardo.
E a linha vai ganhando traço,
arredia e indomável,
como a caneta que a cria.
O fim é incerto, mas sempre vem,
quando me questiono:
fui eu que escrevi?
Aí paro, reflito.
O destino, às vezes,
leva para a gaveta;
outras, para um envelope
com um destinatário.
E a maioria, pelo assombro,
vira cinzas e fumaça
no braseiro.