Charles Araújo

DA CULPA DO CORPO

DA CULPA DO CORPO

 

E a carne em tormento disse:

 

A culpa é o preço sujo de quem provou o que chamam de delinquência demasiadas

achando que era apenas desejo.

Mas o desejo é um altar profano,

e a oferenda é sempre o próprio eu.

Quem se deita por vaidade desperta excomungado de si.

 

O arrependimento rasteja como serpente cega,

mordendo o rastro do próprio veneno.

Traz nos lábios o silêncio, nos olhos o espelho,

e no peito, lembranças que queimam como ácido na língua dos que mentiram com o corpo.

 

O prazer vira cinza entre os dentes,

e a mentira reflete no espelho do quarto

onde ninguém mais se reconhece.

Ali o amor se despe da pureza

e mostra sua face: humana, contraditória, faminta.

 

Mas Quem trai por lascívia não perde o amor 

perde o direito de chamá-lo de puro.

Pois amor não deixa de existir, apenas se mancha com o toque do real.

E o real é cruel, pois não perdoa o delírio.

 

A dor do arrependimento é mais amarga que a própria inexistência,

porque cada lembrança é um soco no ventre,

um eco do corpo que ainda treme

pelo que já morreu dentro dele.

 

E a serpente sorrindo com dentes gastos, concluiu:

 Eu não criei o pecado. Apenas o nomeei.

E quando o chamei de prazer, to

dos vieram por vontade própria.