DA CULPA DO CORPO
E a carne em tormento disse:
A culpa é o preço sujo de quem provou o que chamam de delinquência demasiadas
achando que era apenas desejo.
Mas o desejo é um altar profano,
e a oferenda é sempre o próprio eu.
Quem se deita por vaidade desperta excomungado de si.
O arrependimento rasteja como serpente cega,
mordendo o rastro do próprio veneno.
Traz nos lábios o silêncio, nos olhos o espelho,
e no peito, lembranças que queimam como ácido na língua dos que mentiram com o corpo.
O prazer vira cinza entre os dentes,
e a mentira reflete no espelho do quarto
onde ninguém mais se reconhece.
Ali o amor se despe da pureza
e mostra sua face: humana, contraditória, faminta.
Mas Quem trai por lascívia não perde o amor
perde o direito de chamá-lo de puro.
Pois amor não deixa de existir, apenas se mancha com o toque do real.
E o real é cruel, pois não perdoa o delírio.
A dor do arrependimento é mais amarga que a própria inexistência,
porque cada lembrança é um soco no ventre,
um eco do corpo que ainda treme
pelo que já morreu dentro dele.
E a serpente sorrindo com dentes gastos, concluiu:
Eu não criei o pecado. Apenas o nomeei.
E quando o chamei de prazer, to
dos vieram por vontade própria.