julianahoffmannliska

Peito silencioso e morno

Te espero — mas já não como antes,
não na pressa ingênua de quem acredita no retorno,
te espero como quem guarda um tempo inteiro
dentro do peito, silencioso e morno.

Augusto, 1889 ainda respira em mim,
como um relógio que nunca aceitou parar,
e agora, em outro tempo, cada segundo que passa
é mais uma forma de te lembrar.

Eu te guardo nas coisas pequenas:
no vento que dobra a cortina ao entardecer,
no som distante de um trem que passa,
no vazio que insiste em não te esquecer.

Te espero — mas aprendi a existir na ausência,
a caminhar com tua falta ao meu lado,
como se fosses sombra e memória,
como se nunca tivesses partido.

Há dias em que dói como despedida recente,
outros em que és quase um sonho distante,
mas em todos, sem exceção,
te quero — inteiro, constante.

E se o tempo é esse abismo entre nós,
ainda assim me atrevo a atravessar:
com lembranças, com saudade, com tudo que fomos,
porque amar também é saber esperar.

E eu espero.

Mas te guardo no meu olhar.