Amarildo gastão

Tolices da vida

 

 

 

Por anos,

olhei para mim

como um espelho treinado

para refletir o que os outros esperavam ver.

 

Fui molde.

Fui silêncio.

Fui resposta antes mesmo da pergunta existir.

 

Vesti expectativas

como se fossem pele —

e esqueci onde terminava o mundo

e começava eu.

 

Dizem que falhei…

mas ninguém me disse onde.

 

Reviro memórias

como quem procura um erro

numa página que nunca se escreveu sozinha.

 

O que não fiz?

O que não disse?

Em que momento meus olhos não ficaram?

 

Ou será que fiquei demais…

onde ninguém sequer estava?

 

Nunca fui perfeito —

e isso eu sei.

Mas também nunca fui metade

quando me pediam inteiro.

 

E ainda assim,

sou eu quem carrega o peso

de não ter sido suficiente.

 

É curioso…

como aprendi a me colocar no lugar dos outros

mesmo quando era eu quem sangrava.

 

Eu sentia por dois,

compreendia por três,

perdoava por um mundo inteiro.

 

Mas quando a dor tem o meu nome,

o mundo fica surdo.

 

Ninguém se inclina.

Ninguém pergunta.

Ninguém fica.

 

Todos têm algo a dizer —

até o silêncio ganha voz

quando é para me julgar.

 

E eu?

Eu continuo aqui…

 

um lugar que ninguém visita,

um grito que ninguém escuta,

um coração que aprendeu

a bater baixo

para não incomodar.

 

Mas há algo que ninguém entende —

nem mesmo aqueles que foram embora:

 

ser quem sente demais

não é fraqueza.

 

É sobreviver

mesmo quand

o o mundo escolhe ir embora...

Era muita tolice!