Luana Santahelena

Entre Fatias de Verdade e o Doce de Perdoar

Gente, vamos ser sinceros — eu repito,

como quem segura um pão ainda quente nas mãos —

se a verdade fosse inteira,

redonda, densa, sem cortes,

talvez eu mesma me engasgasse

antes mesmo de dizer “bom dia”.

 

Então aprendi (ou finjo que aprendi)

a fatiar o que sinto

em lâminas quase transparentes,

dessas que não ferem de imediato,

mas também…

não alimentam por completo.

 

Há dias em que penso:

será que a verdade precisa mesmo ser tão crua?

ou será que somos nós

que ainda mastigamos a vida com medo?

 

Sirvo palavras como quem serve café:

quente o suficiente para acordar,

mas não a ponto de queimar a língua

de quem já acordou cansado.

 

E ainda assim,

há sempre aquele gole mais forte —

o vinho da honestidade,

descendo sem pedir licença,

ardendo bonito no peito

como coragem recém-nascida.

 

(Confesso: às vezes me embriago dela

e falo demais —

a alma tropeça nas próprias certezas

e ri, meio sem graça.)

 

Mas no fim,

quando a mesa já está em silêncio

e os excessos repousam entre migalhas,

descubro que nada sustenta mais

do que o improvável:

 

a sobremesa.

 

O perdão servido sem medida,

mesmo quando alguém — sempre alguém —

comeu o último bombom

sem nem olhar nos meus olhos.

 

E ali, entre o riso e o quase rancor,

eu entendo, com uma certa ternura:

 

a vida não pede verdades inteiras,

pede coragem suficiente

para repartir, engolir,

e, sobretudo,

adoçar o que ficou atravessado.

 

Porque, no fundo,

talvez o verdadeiro milagre

não seja dizer tudo —

 

mas continuar à mesa

mesmo depois disso.