Gente, vamos ser sinceros — eu repito,
como quem segura um pão ainda quente nas mãos —
se a verdade fosse inteira,
redonda, densa, sem cortes,
talvez eu mesma me engasgasse
antes mesmo de dizer “bom dia”.
Então aprendi (ou finjo que aprendi)
a fatiar o que sinto
em lâminas quase transparentes,
dessas que não ferem de imediato,
mas também…
não alimentam por completo.
Há dias em que penso:
será que a verdade precisa mesmo ser tão crua?
ou será que somos nós
que ainda mastigamos a vida com medo?
Sirvo palavras como quem serve café:
quente o suficiente para acordar,
mas não a ponto de queimar a língua
de quem já acordou cansado.
E ainda assim,
há sempre aquele gole mais forte —
o vinho da honestidade,
descendo sem pedir licença,
ardendo bonito no peito
como coragem recém-nascida.
(Confesso: às vezes me embriago dela
e falo demais —
a alma tropeça nas próprias certezas
e ri, meio sem graça.)
Mas no fim,
quando a mesa já está em silêncio
e os excessos repousam entre migalhas,
descubro que nada sustenta mais
do que o improvável:
a sobremesa.
O perdão servido sem medida,
mesmo quando alguém — sempre alguém —
comeu o último bombom
sem nem olhar nos meus olhos.
E ali, entre o riso e o quase rancor,
eu entendo, com uma certa ternura:
a vida não pede verdades inteiras,
pede coragem suficiente
para repartir, engolir,
e, sobretudo,
adoçar o que ficou atravessado.
Porque, no fundo,
talvez o verdadeiro milagre
não seja dizer tudo —
mas continuar à mesa
mesmo depois disso.