Anna Gonçalves

Roteiro criado e concretizado pelo medo

Creio que, de certo modo,

escrevemos, sim, com tinta de desejo,

o roteiro do que a gente quer viver.

Idealizamos cada toque, cada beijo,

aquele plano perfeito, antes mesmo do amanhecer.

 

Mas nesse semear duro do tempo,

a terra morde o vácuo, o que a mão plantou.

Os dias acontecem, leva o alento,

e por medo, nada vira o que se sonhou.

 

Crescemos na ilusão de que controlamos,

o compasso do mundo ao redor.

Mas somos barco, não oceano,

à mercê de uma força maior.

 

O esforço é bicho que se consome,

pra estar perto de quem se quer bem.

Mas amor não é nome que se some,

se o outro braço não abraça também.

 

É jogo de espelho, mão que duplica,

se um falha no lance, o outro se istrupica.

Nenhum \"romance\" a vida justifica,

quando a escolha de um lado vai.

 

Negar o erro, vestir de poesia,

não olhar nos olhos e entender a própria intenção.

Ocorre a falha nítida, o desencontro vão,

é falsificar a biografia,

e entregar o rumo sempre pra outra mão.

 

O esboço e rascunho do roteiro rasga, o prumo entorta,

a vida reescreve sem nos avisar.

O amor aceita, fecha a porta,

e um novo caminho se dá a traçar e reinventar...

 

Mas deixa pra lá, vou \"idealizar\" e eu mesmo fazer o fim.

Gastei muito tempo aqui em imaginar e reescrever,

uma vida inteira sem te conhecer.

Rasgo as palavras, enfio goela abaixo essa experiência que foi vivida e sentida para desmontar os versos das poesias,

melhor me livrar de vez e voltar a seguir meus dias.

 

Pois de nada vale ter a verdade à frente,

se você mesmo tapa a visão e a mente.

De nada adianta saber o que o peito sente,

e negar ao coração o que é seu, simplesmente.

Se sua felicidade é apenas no mundo da imaginação,

sem erros, sem acertos, sem diálogo, sem decisão, sem ação...