Oswaldo Jesus Motta

Lá vai ela

Lá vai ela,

com alguma coisa guardada

que pesa —

não faz barulho,

mas puxa o corpo um pouco pra trás

e ainda assim

ela vai

Lá vai ela,

vestido de cetim

roçando a noite

como quem atravessa a casa

sem acender a luz

pra não acordar o que sente

vai —

talvez pra alguém

talvez só até cansar

dessas vezes

em que o peito improvisa um jeito

(e depois cobra)

mas deixa seguir

Lá vai ela,

sem saber direito

o que fica

no caminho que não volta

caindo mansa

num abraço

que ainda não tem nome

Lá vai ela,

deixando

que a noite decida um pouco

porque decidir tudo

cansa demais

ela vai

Lá vai ela,

jovem ainda,

bonita nesse descuido

de continuar

mesmo quando percebe

esse quase —

o copo na beira da mesa

inclinado demais