Lá vai ela,
com alguma coisa guardada
que pesa —
não faz barulho,
mas puxa o corpo um pouco pra trás
e ainda assim
ela vai
Lá vai ela,
vestido de cetim
roçando a noite
como quem atravessa a casa
sem acender a luz
pra não acordar o que sente
vai —
talvez pra alguém
talvez só até cansar
dessas vezes
em que o peito improvisa um jeito
(e depois cobra)
mas deixa seguir
Lá vai ela,
sem saber direito
o que fica
no caminho que não volta
caindo mansa
num abraço
que ainda não tem nome
Lá vai ela,
deixando
que a noite decida um pouco
porque decidir tudo
cansa demais
ela vai
Lá vai ela,
jovem ainda,
bonita nesse descuido
de continuar
mesmo quando percebe
esse quase —
o copo na beira da mesa
inclinado demais