Derramando mel nas minhas costuras,
o sangue abre fissuras,
glacê cobre minha carne latejante,
tão doce… tão aterrorizante.
Minhocas escrevem meu fim por dentro,
rasgam memórias, comem o centro,
meu corpo pequeno e distante
apodrece lento e aterrorizante.
A doçura mora nos detalhes,
nos restos, nos cortes, nos retalhes,
o cadáver é teu, és tu o comandante
desse amor morto e aterrorizante.
Estou morta, mas fico nas lembranças,
presa nas tuas frágeis esperanças,
fantasma doce, beijo cortante,
presença ausente e aterrorizante.
Chove terra na minha decomposição,
cada grão fecha nossa extinção,
da terra viro musgo rastejante,
verde quieto e aterrorizante.
De repente não há mais corpo, nem dor,
só húmus do antigo amor,
o tempo começa pulsante
num campo pequeno, verde vibrante.
Então me vejo rastejar diferente,
minhoca que mastiga o que sente,
transformo o cadáver em algo abundante,
renasço do horror aterrorizante.
Aterrorizante é florescer
exatamente onde precisei morrer.