Sob a lua cheia que desfia prata nos canais,
um silêncio antigo repousa nas pedras úmidas,
e os barcos — lentos, quase sonhos —
deslizam como segredos entre pontes cansadas.
Há música no ar, mas ninguém a vê,
talvez um violino esquecido em alguma janela,
ou o próprio coração da noite
batendo baixo, chamando por nós.
Te encontro ali, onde a água hesita
em ser reflexo ou profundidade,
teu olhar acende lanternas invisíveis
e faz da escuridão um lugar habitável.
As gôndolas passam como promessas,
e cada remada escreve um verso
que não ousamos dizer em voz alta —
mas que sentimos inteiro.
Quero te amar assim:
como quem se perde de propósito,
como quem atravessa a névoa
sem saber se há margem do outro lado.
E voltar…
voltar até o fim de mim,
onde já não sou só ausência ou caminho,
mas tudo aquilo que tua presença inventa.
Se o tempo nos chamar de volta,
que seja devagar, como esses barcos,
para que o amor permaneça suspenso
entre o instante e o eterno —
como Veneza sob a lua,
em 1879,
ainda intacta dentro do sonho
eu, você e a lua.