Ricardo Maria Louro

Quadras de uma Alma despojada

Num tampo de mesa fria

escrevi da minha solidão,

amargas dores que sentia

como espinhos no coração...

 

Nessa dor que remoemos,

nesse querer e nunca ter,

há sempre alguém que não temos

nessas horas de sofrer.

 

À mesa do que não temos

nem a vida nos diz nada

só lembrando o que perdemos

dessa vida já passada.

 

À mesa do destino

vai passando a nossa história

meus cansaços de menino

\'inda me toldam a memória.

 

Estes versos, por piedade,

tem minha dor por filha,

nesta mesa, na verdade,

só o nada se partilha.

 

Num doer que não esquecemos

num esquecer qu\'inda nos dói,

o porquê de não morrermos,

desta ângustia que nos mói?!

 

Se eu pudesse tirar da mente

esta dor que me esvazia,

não era o poeta que hoje sente

neste tampo de mesa fria.