Escrevemos, sim, com tinta de desejo,
o roteiro do que a gente quer viver.
Idealizamos cada toque, cada beijo,
plano perfeito, antes do amanhecer.
[Como Shakespeare em \"A Comédia dos Erros\" ]
Mas no semear duro do tempo,
a terra morde o que a mão plantou.
O vento sopra, leva o alento,
e nada vira o que se sonhou.
Crescemos na ilusão de que controlamos,
o compasso do mundo ao redor.
Mas somos barco, não oceano,
à mercê de uma força maior.
O esforço é bicho que se consome,
pra estar perto de quem se quer bem.
Mas amor não é nome que se some,
se o outro braço não abraça também.
É jogo de espelho, mão que duplica,
se um falha no lance, o castelo cai.
Nenhum \"romance\" a vida justifica,
quando a escolha de um lado vai.
Negar o erro, vestir de poesia,
a falha nítida, o desencontro vão,
É falsificar a biografia,
e entregar o rumo sempre pra outra mão.
O roteiro rasga, o prumo entorta,
a vida reescreve sem nos avisar.
O amor aceita, fecha a porta,
e um novo caminho se dá a traçar.
Mas deixa pra lá, vou idealizar e eu mesmo fazer o fim.
Gastei muito tempo em imaginar e reescrever,
Uma vida inteira sem te conhecer.
Rasgo as palavras, desmonto as poesias,
Melhor me livrar de vez, cortar pela raiz e seguir meus dias.