Mergulhado no silêncio do asfalto e do muro,
o artista não pinta apenas traços;
ele resgata do esquecimento o brilho de um olhar
que já viu o mundo mudar mil vezes.
Cada pincelada é um carinho no rosto da memória,
um preenchimento suave nas rugas que contam histórias,
onde cada sulco da pele é um caminho percorrido,
e cada fio de cabelo, uma chama de outono que resiste ao vento.
Ela observa o horizonte que só os experientes enxergam.
Não olha para o pintor, mas para o infinito,
com o queixo apoiado na mão que já carregou o peso da vida,
agora transformada em luz, sombra e pigmento.
O artista, pequeno diante da magnitude da existência,
ajoelha-se para traduzir o invisível.
Entre as cores da sua paleta e as gotas que escorrem como lágrimas de tinta,
ele faz o efêmero tornar-se eterno.
Pois enquanto houver mãos dispostas a pintar a vida,
ninguém jamais será verdadeiramente esquecido.
A beleza não está na juventude que se esvai,
mas na profundidade do olhar que permanece.
Maiza Chagas