Mirela

Entre a vontade e o silĂȘncio

A gente se fala

como se fosse normal,

como se meu corpo não reagisse

toda vez que você chega perto.

 

E você nem imagina.

 

Nem imagina que, enquanto ri,

eu reparo no teu cabelo azul

como quem se perde fácil,

como se fosse impossível não olhar.

 

A gente já foi simples,

conversa solta, sem intenção.

Agora eu me controlo

em cada palavra

pra não deixar escapar demais.

 

Porque tem coisa em mim

que não é mais só amizade.

 

É vontade.

 

Vontade de chegar mais perto

sem precisar inventar motivo,

de encostar em você

como se fosse natural,

de te abraçar

sem ter que pensar antes.

 

Mas eu não faço.

 

Fico ali, do teu lado,

fingindo que é só mais um dia,

enquanto minha mente

cria mil jeitos de diminuir a distância

que eu não tenho coragem de quebrar.

 

E o pior é esse “quase”.

 

Quase encosto.

quase falo.

quase deixo claro.

 

Mas paro sempre antes.

 

Porque você ainda me vê

como sempre viu —

e eu sigo aqui,

com essa vontade escondida,

 

te olhando como quem sabe

exatamente o que quer,

mas finge

que não quer nada.