Eder Maurilio Soares

O Último Lampejo do Aço

Sob a lua de chumbo deste tempo sem glória,

Contemplo as cinzas de uma antiga memória.

A espada repousa, pesada na mão,

Enquanto a desonra domina a nação.

Não vejo guerreiros, nem passos de luz,

Apenas a sombra que a cobiça conduz.

A Justiça (Gi), outrora forjada em verdade,

Hoje é um leilão de cinismo e vaidade.

Vendem o certo por moedas de prata,

Enquanto a retidão agoniza e desata.

O forte esmaga o justo sem dor ou pesar,

E o grito do inocente já não ecoa no ar.

Onde dorme a Honra (Meiyo), o sol do meu peito?

Vejo o falso louvado, o covarde satisfeito.

A palavra sagrada, promessa imortal,

Tornou-se um sopro no pântano moral.

Homens ocos rastejam, buscando vantagem,

Vestindo sorrisos, mas despidos de coragem.

Meu sangue ferve numa indignação feroz,

E ao silêncio do mundo, levanto a minha voz.

Como o sakura que cai no rigor da tormenta,

Vejo a era perder a virtude que a sustenta.

A Lealdade (Chugi) foi morta no altar do egoísmo,

E o respeito afunda num vasto abismo.

Olho as ruas de pedra, os templos de vidro,

E vejo um povo de si mesmo esquecido.

Temem a morte, mas não sabem viver,

Recusam a luta, esquecem o dever.

Trocaram a forja da alma por ouro ilusório,

Transformando a existência num triste velório.

Mas que o mundo desabe em seu próprio vazio,

Que o rio dos homens se torne sombrio.

Meu espírito é katana, polida e letal,

Não me curvo à lama, não me rendo ao mal.

Serei a última brasa do Caminho esquecido,

Guardando no peito a alma do Bushido.