Memórias do “madeiro” de Vila Viçosa
Numa terra onde o vento sabe os nomes das casas,
há um Rossio largo como coração que se abre.
O tempo, ali, repousa poeirento e vagaroso,
entre a sombra das árvores e o eco dos sinos da matriz
— parece que a própria história se deixa tocar
pelos que caminham em passo moroso,
com olhar atento ao rumor das pedras.
Não longe, o Carrascal murmura
um som de gravilha e segredos guardados,
lembrança dos espíritos dos que partiram,
ou do riso dos rapazes que já envelheceram
e que, agora, voltam em silêncio.
E há também a Praça da República,
onde as gentes se encontram e se perdem,
onde a fonte escorre recordações das quatro bicas,
onde os homens se cruzam sem pressa,
olhando uns para os outros com a calma de quem sabe
que a vida inteira cabe num gesto breve,
num aceno, num sorriso tímido.
No Natal, o madeiro arde,
nem sempre no mesmo sítio.
Há anos em que o lume se levanta no Rossio,
espalhando-se em reflexos nas janelas,
como se a vila inteira respirasse fogo
e os homens se detivessem, imóveis,
absorvendo o calor que lhes toca a pele
e o aroma antigo da urbe que neles corre.
Noutros, é na Praça que arde,
perto das igrejas, onde o fumo se mistura às rezas
e as brasas parecem estrelas caídas no solo.
E há os anos do Carrascal,
quando o fogo se ergue no grande eirado,
o cheiro do pinho verde se cola ao frio da noite
e cada homem, quieto, observa,
como quem lê um livro ancestral
cujo epílogo ainda está por escrever.
Nenhum desses fogos é igual.
Cada um tem o seu estalido e modo de subir,
a sua cor, a sua maneira de morrer.
E os homens chegam, calados,
de mãos nos bolsos de samarras e capotes,
com os olhos bem presos ao lume
— cada chama sussurra-lhes enigmas
que só eles podem compreender.
Alguns afastam-se, vão ao café,
pedem um copo de vinho ou uma cerveja,
soltam uma frase breve, um riso tímido,
e voltam, com o rosto marcado pela luz,
guardando dentro do seu ser
o calor que queima as palavras que doeram,
os gestos falhados, os silêncios longos,
preparando o caminho para o que há-de vir.
O calor chega-lhes à pele como bênção rude,
sem sacerdote, altar ou alfaias religiosas,
mas com a força de quem acredita no renascer.
As chamas crepitam, mudam de cor,
ora vermelhas como o sangue animal,
ora douradas como promessas.
No ar, o cheiro do pinho e da esperança,
a resina remanescendo do tronco,
a cinza subindo como oração breve,
as faúlhas perdendo-se no escuro,
cada uma levando um mistério.
E quando o lume amansa
e a sequente escuridão se instala,
ficam os homens e o silêncio,
todos esperando ouvir do fogo,
que a pouco e pouco se extingue,
a palavra final do ano que parte.
Depois, apenas o vento varrendo o chão,
e a certeza de que, no próximo Dezembro,
ali ou noutro lugar da vila,
o madeiro voltará a arder
e tudo recomeçará.
Publicado in \"Madeiro - Fólios de Poesia VI\", Município de Penamacor, Portugal, 2026