Ó Dor que mora na alma, és sombra fria,
Três luas passadas do adeus ao irmão,
Onde a ausência veste a luz do dia,
E a memória aperta o coração.
Sentimento vasto, luto sem medida,
Um abismo aberto na razão de ser,
A ferida aberta, ainda não sarada,
Onde o tempo tarda a florescer.
Mas eis que surge um estranho convite,
Na névoa densa desta solidão,
De uma voz que ignora o que se admite,
Um chamado à festa, sem compaixão.
Vem, Tereza, à casa que me abriga,
Onde a saudade não tece o seu lençol,
Sábado de mesa farta e banquete erguido,
Domingo ardente sob o sol em brasa.
Não entendo a pressa, o passo incerto,
Em celebrar enquanto a dor palpita,
Meu espírito busca o porto aberto,
E a alma clama por uma paz bendita.
Ó Viúva, dize qual o sentido oculto,
Deste convite que me fere e chama,
No silêncio grave deste meu vulto,
Acende a dúvida, inflama a chama.
Que a força venha para eu compreender
A dança estranha que a vida propõe,
Entre o pesar que insiste em me prender
E o dia novo que a manhã dispõe.
Ó Musa do Desvelo interrompido,
Vós que testemunhais a noite finda,
Meu corpo pesa, o descanso esquecido,
Alma que a vigília obstina ainda.
Cansada estou, a pálpebra pesada,
A estrela viu meu rosto sem repouso,
Mas eis que surge a luz anunciada,
E o dia traz um alívio venturoso.
Pela manhã, com passo leve e brando,
O Sono se afastou, não sem lamento,
Deixando um vazio que ia restando,
Mas trouxe a vida em seu novo momento.
E então, do galho que se inclina ao vento,
Chegou a turba em algazarra clara,
Com cantos que eram puro movimento,
Uma sinfonia simples, rara.
Pensei, com a mente ainda meio ausente,
Na ordem que se impõe ao que desvela,
E a gratidão brotou, forte e presente,
Ao ver a revoada que se revela.
Ó pardais ligeiros, bando matinal,
Vossa dança no ar me acalma a vista,
Fugiu o peso, o sono desigual,
Pois a beleza existe, e persiste.
Autoria: Tereza M. Lima
Descrição
Este poema nasce de um tempo em que a alma caminha entre extremos: o peso do luto e o movimento inevitável da vida que insiste em continuar.
Entre o silêncio da ausência e os ruídos de convites, festas e dias comuns, surge o estranhamento — como se o coração ainda estivesse parado enquanto o mundo segue adiante.
Mas, mesmo na madrugada mais cansada, a manhã chega. E às vezes ela vem simples, leve, no canto dos pardais, lembrando que a beleza ainda existe… e persiste.
https://youtu.be/C3BuITOx3Cs?si=1hCOmMpk3ViUk_x0