Toda vez que eu passo por aquele portão,
não é só ferro que range…
é o tempo.
É como se ele ainda me reconhecesse,
como se dissesse baixinho:
Demorou… achei que você não vinha mais.
E eu entro.
Mas já não entro como antes.
Antes eu vinha correndo, mochila nas costas, coração leve, sabendo exatamente o que ia encontrar.
Hoje eu entro devagar…
como quem pisa num lugar sagrado e ao mesmo tempo quebrado.
Cadê os latidos?
Cadê a bagunça no quintal?
Cadê aquela certeza de que eu passaria na sua casa antes mesmo de eu entrar na minha?
Não tem mais.
Não tem mais minha avó.
Não tem mais os cachorros.
Não tem mais aquele cheiro de casa viva.
E isso dói…
mas não é uma dor barulhenta.
É uma dor mansa.
Daquelas que sentam do teu lado e só ficam ali… te olhando.
Hoje tem outras pessoas.
Outras histórias.
Outros sonhos morando ali.
E eu respeito.
Porque a vida é isso…
um ciclo onde a gente ocupa, constrói, ama…
e depois vira lembrança na parede de alguém.
Mas mesmo assim…
mesmo com tudo diferente…
tem algo que nunca foi embora.
Eu sinto.
No vento que bate no quintal,
no jeito que a luz entra no fim da tarde,
no silêncio que parece cheio demais…
O coração da minha avó ainda mora ali.
O da minha família também.
E talvez…
talvez aquele lugar nunca tenha sido só uma casa.
Talvez tenha sido um pedaço de mim
que ficou.
E toda vez que eu passo pelo portão…
não é só saudade.
É reencontro, é Raul voltando a ser menino.
Por Freddie Seixas