Ryan Soares Gil

Onde o SilĂȘncio Aprende a Falar

A madrugada não pesa apenas no tempo,
ela se estende dentro da gente,
ocupando espaços que nem sabíamos que existiam.

É nesse silêncio prolongado
que os pensamentos deixam de sussurrar
e começam a encarar a gente de frente,
sem filtro, sem distração, sem fuga.

Crescer, eu percebi,
não tem nada a ver com respostas prontas.
É mais sobre aprender a conviver
com perguntas que não se calam,
e mesmo assim continuar caminhando.

Existe uma versão de mim
que eu ainda não consegui alcançar,
e outra que eu venho tentando deixar pra trás —
e no meio disso tudo,
eu existo, incompleto, em construção.

O medo, às vezes, não grita.
Ele se disfarça de prudência,
se esconde em decisões adiadas,
em palavras não ditas,
em afetos que a gente recua antes de sentir.

E quando percebo,
já ergui muros altos demais
pra alguém que só queria ser entendido.

Há um cansaço que não é físico,
é o peso de tentar ser suficiente
em um mundo que nunca diz o que é o bastante.

Mas também há algo curioso nisso tudo:
mesmo quebrado,
mesmo confuso,
eu continuo.

Não por certeza,
mas por uma espécie de teimosia silenciosa
que insiste em acreditar
que ainda há algo em mim
que vale a pena ser descoberto.

Talvez amadurecer seja isso —
não endurecer o coração,
mas aprender a carregá-lo com mais consciência,
mesmo quando ele pesa.

E, aos poucos,
as palavras que antes não saíam
começam a encontrar caminho.

Não como discursos perfeitos,
mas como verdades honestas,
ainda trêmulas,
ainda imperfeitas,
mas finalmente minhas.

Porque no fim,
não se trata de se tornar alguém inalcançável,
nem de apagar as próprias falhas —

mas de olhar pra si mesmo,
com tudo o que há,
e ainda assim escolher ficar.