Luiz Pipa (Binho)

Ângulos

Na beira da vida, ela brinca com os ângulos agudos.
Aprendeu que seu trabalho era remover dos ângulos rasos os obtusos.
Desacostumar do costume e enfrentar o vento que curva as árvores,
espalha a areia dos montes e emaranha a maré que a empurra.

Na sensação de ir até onde seus pés não tocam a areia,
seus ossos alavancam o corpo e seus músculos eletrificam em movimento.
Esse é o ângulo agudo de sua vida, entre as linhas do ar que ameaça faltar.
Ali se sente viva, ao se dar conta da utilidade do respirar.
E quando volta para a margem, caminha, pois descobriu o valor da ausência do chão.

Não faz isso todos os dias porque tem medo do maior abismo da vida, o costume.
Deixa por conta do ocaso que a leva ao acaso do desaguar.
Sem dar-se conta, acaba na beira do mar depois de tantos quaisquer dias,
sem muito ponderar, vai sem eira e quando volta não é a mesma.
Algo de si ficou lá e algo de lá trouxe cá.