Luana Santahelena

Quando o Tempo Pede Licença para Sentir

Inventar um feriado

— descobri hoje, meio sem querer —

é dar ao afeto

o direito raro

de interromper o mundo.

 

(Como se o universo, por um instante,

tirasse os sapatos

e entrasse em silêncio.)

 

Então fiz isso:

decretei você como lei vigente.

Sem votação, sem consulta pública,

sem nem fingir imparcialidade.

 

Confesso:

fui tendenciosa.

 

O relógio protestou, claro.

Disse que havia compromissos,

minutos importantes,

coisas inadiáveis.

 

Tirei os ponteiros.

Agora ele marca

o tempo aproximado do que sinto —

impreciso,

mas muito mais honesto.

 

O sol, cúmplice declarado,

se esticou pela janela

como quem quer assistir de perto

essa pequena revolução doméstica.

 

E eu escrevo.

Escrevo teu nome

como quem acende luz em quarto antigo,

como quem tenta entender

se amar é escolha

ou só um tropeço elegante da existência.

 

(Desconfio que seja os dois.)

 

Mais do que uma data,

esse feriado virou abrigo:

papel, silêncio

e essa estranha sensação

de que o mundo lá fora continua —

mas não faz tanta falta assim.

 

Às vezes penso

que a vida exige pressa

só para ver quem tem coragem

de desobedecer.

 

E amar…

amar é uma forma muito bonita

de não obedecer direito.

 

Porque o amor não aceita adiamentos,

não entende agendas,

não respeita esse nosso hábito curioso

de sentir só depois.

 

Ele chega antes,

senta, cruza as pernas

e espera que a gente finalmente perceba.

 

Hoje eu percebi.

 

E, entre um verso e outro,

enquanto invento um abraço

que começa na palavra

e termina em algum lugar mais fundo,

eu me pergunto —

 

(sempre me pergunto)

 

se a gente ama para entender a vida

ou se vive

só para ter onde colocar o amor.

 

Não chego a uma resposta.

Mas, sinceramente,

nem sei se quero.

 

Tem perguntas

que são mais bonitas

quando continuam abertas,

respirando.

 

Então fico aqui,

neste feriado improvável,

onde o mundo desacelera

e eu, finalmente, não corro.

 

E se amanhã tudo voltar ao normal,

que volte.

 

Mas hoje —

hoje eu tenho licença poética

para existir um pouco menos certa

e muito mais inteira.

 

E isso,

com uma leve suspeita de riso,

talvez seja

o mais próximo de liberdade

que eu já senti.