Inventar um feriado
— descobri hoje, meio sem querer —
é dar ao afeto
o direito raro
de interromper o mundo.
(Como se o universo, por um instante,
tirasse os sapatos
e entrasse em silêncio.)
Então fiz isso:
decretei você como lei vigente.
Sem votação, sem consulta pública,
sem nem fingir imparcialidade.
Confesso:
fui tendenciosa.
O relógio protestou, claro.
Disse que havia compromissos,
minutos importantes,
coisas inadiáveis.
Tirei os ponteiros.
Agora ele marca
o tempo aproximado do que sinto —
impreciso,
mas muito mais honesto.
O sol, cúmplice declarado,
se esticou pela janela
como quem quer assistir de perto
essa pequena revolução doméstica.
E eu escrevo.
Escrevo teu nome
como quem acende luz em quarto antigo,
como quem tenta entender
se amar é escolha
ou só um tropeço elegante da existência.
(Desconfio que seja os dois.)
Mais do que uma data,
esse feriado virou abrigo:
papel, silêncio
e essa estranha sensação
de que o mundo lá fora continua —
mas não faz tanta falta assim.
Às vezes penso
que a vida exige pressa
só para ver quem tem coragem
de desobedecer.
E amar…
amar é uma forma muito bonita
de não obedecer direito.
Porque o amor não aceita adiamentos,
não entende agendas,
não respeita esse nosso hábito curioso
de sentir só depois.
Ele chega antes,
senta, cruza as pernas
e espera que a gente finalmente perceba.
Hoje eu percebi.
E, entre um verso e outro,
enquanto invento um abraço
que começa na palavra
e termina em algum lugar mais fundo,
eu me pergunto —
(sempre me pergunto)
se a gente ama para entender a vida
ou se vive
só para ter onde colocar o amor.
Não chego a uma resposta.
Mas, sinceramente,
nem sei se quero.
Tem perguntas
que são mais bonitas
quando continuam abertas,
respirando.
Então fico aqui,
neste feriado improvável,
onde o mundo desacelera
e eu, finalmente, não corro.
E se amanhã tudo voltar ao normal,
que volte.
Mas hoje —
hoje eu tenho licença poética
para existir um pouco menos certa
e muito mais inteira.
E isso,
com uma leve suspeita de riso,
talvez seja
o mais próximo de liberdade
que eu já senti.