Um dia
todos aperreios do mundo vão acabar
o trânsito congestionado
o semáforo quebrado
a música alta do vizinho ao lado
a poluição, a poeira e os fungos
a internet fora do ar
o celular descarregado
a enorme fila demorada
a meta inatingível no trabalho
a muriçoca zumbindo no ouvido
e o sufoco dentro de um peito apertado
Um dia
nada mais há de importar
nem a inquietação de viver
nem a alegria em poder andar
Um dia
os ruídos vão se afastar
as horas vão perder o peso
os pensamentos vão se soltar
os medos vão esquecer seu nome
as paredes vão desaprender a fechar
as memórias vão perder as bordas
o corpo vai aprender a descansar
e o tempo deixará de ser paisagem
Um dia
como um suspiro longo
todos finalmente irão pousar