te encontrei na beira de um pensamento sujo
desses que a gente não confessa nem pro travesseiro
teu nome escorria lento
feito bebida barata descendo pela garganta de um sábado vazio
e eu, todo errado, todo tarde, todo ninguém
quis te caber
mas amor não é quarto alugado por hora
nem corpo quente pra espantar o frio da madrugada
mesmo assim
te inventei
te desenhei nos muros pichados da minha cabeça
te dei um riso torto, meio cansado, meio salvo
te dei mãos que seguravam as minhas
como se o mundo não fosse embora o tempo inteiro
e por um instante foi
foi bonito, sabe?
dessas belezas meio sujas, meio sinceras
tipo beijo depois de chorar
ou abraço que chega antes da queda
mas a solidão…
ah, ela não vai embora com poesia
ela deita do lado
acende um cigarro invisível
e ri da nossa tentativa ridícula de ser dois
porque no fundo
a gente ainda é um
um só corpo procurando abrigo em outro corpo
um só medo disfarçado de coragem
um só coração fazendo eco dentro de um peito vazio
mesmo assim
(olha que teimosia bonita)
eu continuo escrevendo você
como quem planta flor no asfalto
como quem acende luz em quarto abandonado
como quem acredita ... mesmo sabendo
que o amor pode nascer
até no lugar mais improvável
até dentro de alguém como eu