Anna Gonçalves

O vértice do repouso

Não é fraqueza o que não se move.  

Existe um tipo de força  

que só quem cala conhece, 

a de não responder ao que não pergunta,  

a de não preencher o vazio com ruído.

 

Fazer nada não é esvaziar,

é escolher não girar a chave  

onde não há porta.

É uma ação! 

  

A sabedoria é uma cadeira vazia na varanda.

Compreender que o movimento, às vezes,

é apenas a ilusão de quem tem medo de parar.

É confiar na lentidão que esculpe,

na demora que sedimenta o que é real

 

Minha ânsia por agir é um grito muito antigo

                          [Se não faço, não sou.]

Mas e se o ser não depender do fazer?  

E se permanecer  

for mais compreensão do que gesto?

 

E por que resisto ao que já é?  

O desconforto e o contentamento cabem no mesmo peito.  

Não são inimigos,  são vizinhos e testemunhas  

de que ainda estou aqui, inteira.

 

Preciso voltar e aprender o ritmo que é meu,  

não o que a pressão fabrica.  

Deixar e entender que os outros marche no tempo que lhe cabe,  

sem querer sincronizar o que é único.

Confiar no processo lento  

é um ato de coragem contra a tirania do hoje.

 

Tem um lugar dentro do peito,

onde a culpa não chegou,  

onde a ansiedade perdeu o endereço.  

É para lá que volto,  

não para fugir de mim,  

mas para lembrar  

que minha existência,  

agora,  

do jeito que está,  

já é suficiente.