Samuelson José Florêncio

Ponteiros Devotos

Já não sei que horas são nesta jornada.

 

Quando transformo anseios em ponteiros.

as engrenagens travam sua lida:

fazem seu tic-tac, mas, rasteiros,

tornam a espera lúgubre e incontida.

 

Sua perfeição é um espelho cruel:

o tempo não acelera, apenas move.

Por mais que o olho busque um novo céu,

o vidro frio somente me devolve

o retrato exato de quem sou agora.

 

 

O mais fino é febril, barulhento, vão,

de uma importância fátua e apressada.

Poderia ignorá-lo, e o coração

ainda saberia a luz da alvorada.

 

 

O maior, senhor de pequenos prazos,

das esperas que a rotina descreve,

tateia a vida em múltiplos compassos,

achando-se eterno, sendo apenas breve.

 

 

Já o menor é o tédio em movimento.

Ninguém suporta o seu passo lento;

desejamos que ele, em súbito clarão,

rompa as grades desta sutil prisão

e salte as horas, em um voo mudo.

A sua lucidez é o que nos prende a tudo.

 

 

Mas há outra verdade, mais discreta:

quando o relógio deixa de ser meta

e o presente vale mais que o plano...

Ah, se as horas parassem por engano!

 

 

Seria ousadia, eu bem sei,

pedir descanso a engrenagens devotas,

mas eu desejaria impor uma lei:

que no alívio de saudades remotas,

o tempo enfim achasse o caminho de volta.