Já não sei que horas são nesta jornada.
Quando transformo anseios em ponteiros.
as engrenagens travam sua lida:
fazem seu tic-tac, mas, rasteiros,
tornam a espera lúgubre e incontida.
Sua perfeição é um espelho cruel:
o tempo não acelera, apenas move.
Por mais que o olho busque um novo céu,
o vidro frio somente me devolve
o retrato exato de quem sou agora.
O mais fino é febril, barulhento, vão,
de uma importância fátua e apressada.
Poderia ignorá-lo, e o coração
ainda saberia a luz da alvorada.
O maior, senhor de pequenos prazos,
das esperas que a rotina descreve,
tateia a vida em múltiplos compassos,
achando-se eterno, sendo apenas breve.
Já o menor é o tédio em movimento.
Ninguém suporta o seu passo lento;
desejamos que ele, em súbito clarão,
rompa as grades desta sutil prisão
e salte as horas, em um voo mudo.
A sua lucidez é o que nos prende a tudo.
Mas há outra verdade, mais discreta:
quando o relógio deixa de ser meta
e o presente vale mais que o plano...
Ah, se as horas parassem por engano!
Seria ousadia, eu bem sei,
pedir descanso a engrenagens devotas,
mas eu desejaria impor uma lei:
que no alívio de saudades remotas,
o tempo enfim achasse o caminho de volta.