Oswaldo Jesus Motta

Entre linhas

Era um pedaço de papel.

Dentro,

uma carta.

Desejos de melhora,

luta,

força,

como se as palavras

— ainda —

pudessem sustentar alguém.

Um rapaz,

dezesseis, dezessete talvez,

cheio de futuro

no tempo presente.

Releio.

As frases permanecem,

mas algo nelas

se move —

ou sou eu?

Foi assim?

Ou fui eu

que aprendi

a lembrar diferente?

O passado —

antes tão exato —

agora se esquece

dos detalhes.

Procuro o rapaz

entre as linhas.

Ele não responde.

Ficou

no que escrevi

ou no que,

sem perceber,

apaguei?

Sigo.

Não no papel —

em mim —

onde a memória

reescreve

sem pedir licença.