Apenas um fado nesta madrugada fria,
escorre lento na veia da noite vazia,
como um lamento antigo, quase esquecido,
que encontra em mim o coração ferido.
A lua, pálida, inclina-se sobre a calçada,
como quem ouve uma dor mal contada,
e o vento, cúmplice das horas tardias,
folheia lembranças, rasga alegrias.
Há um vinho amargo repousando no peito,
servido em silêncio, sem cura ou direito,
e cada gole desce como um adeus
que se perdeu no eco dos sonhos meus.
A guitarra chora em cordas invisíveis,
traduz sentimentos indizíveis,
num fado que nasce da ausência tua
e dança sozinho sob a mesma lua.
E eu sigo, metade saudade, metade chão,
carregando ausências na palma da mão,
sabendo que o tempo não cura o que faz,
apenas silencia o grito que a alma trás.