Brendon Leão

APENAS UM FADO NESTA MADRUGADA FRIA

Apenas um fado nesta madrugada fria,
escorre lento na veia da noite vazia,
como um lamento antigo, quase esquecido,
que encontra em mim o coração ferido.

 

A lua, pálida, inclina-se sobre a calçada,
como quem ouve uma dor mal contada,
e o vento, cúmplice das horas tardias,
folheia lembranças, rasga alegrias.

 

Há um vinho amargo repousando no peito,
servido em silêncio, sem cura ou direito,
e cada gole desce como um adeus
que se perdeu no eco dos sonhos meus.

 

A guitarra chora em cordas invisíveis,
traduz sentimentos indizíveis,
num fado que nasce da ausência tua
e dança sozinho sob a mesma lua.

 

E eu sigo, metade saudade, metade chão,
carregando ausências na palma da mão,
sabendo que o tempo não cura o que faz,
apenas silencia o grito que a alma trás.