No limiar onde o indizível se curva à própria ausência,
ele que nome não pede
tece com fios de silêncio
uma língua anterior ao pulso.
Ama como quem não possui verbo,
como quem já atravessou o avesso da chama
e descobriu que arder
é apenas uma metáfora imperfeita.
Nela, porém
há um rumor de vitrines no olhar,
um eco de ouro que ainda aprende a brilhar
e por vezes se prender ao fugaz.
E embora seu peito reconheça
a caligrafia exata da eternidade
no gesto dele
seus dedos hesitam,
como raízes que temem a própria profundidade.
Nada promete
pois prometer seria reduzir o infinito
a um contrato de horas.
Ela tudo deseja
mas confunde o peso da luz
com a leveza do que pode tocar.
Entre ambos, há um intervalo:
não de distância,
mas de densidade.
E nesse intervalo,
onde o tempo se disfarça de escolha,
um amor tenta nascer sem corpo,
enquanto outro insiste em ter nome.
Dize, então
se ainda houver linguagem que suporte a pergunta:
é amor aquilo que se curva ao brilho do instante
ou aquilo que o dissolve?
Mas cuidado
pois a resposta não repousa no sentir,
e sim no que permanece
quando todo sentir se desfaz.