Poderias tu, mil vezes, expulsar-me de tua presença —
e ainda assim eu permaneceria, como sombra que se recusa a deixar o corpo,
adorando-te através dos séculos que ainda não nasceram.
Poderias lançar sobre mim mil maldições,
e meu peito, em vez de temer, aprenderia a sussurrar o teu nome
como uma prece profana, repetida entre os mortos.
Mas não me confundas com os tolos que te erguem como deusa intocável,
que cegos declaram: “Em ti não há falha alguma.”
São eles os primeiros a condenar ao fogo
aquilo que ousa não ser divino.
Eu não.
Eu vejo tuas imperfeições —
e é nelas que reside tua verdade mais cruel e mais bela.
És falha, és carne, és erro…
e ainda assim, és aquilo que me arrasta para além de mim.
Pois entre todas as formas que o mundo insiste em repetir,
há algo em ti que rompe —
um desvio sutil, um abismo silencioso:
o teu olhar.
Nele, encontro minha ruína e minha rendição.
É nele que me perco sem desejo de retorno,
como quem contempla o próprio fim e o aceita.
E se o destino exigisse meu último suspiro
para te conceder apenas mais um dia sob este céu moribundo,
eu o entregaria sem hesitar —
mesmo sabendo
que esse dia jamais seria meu.