TainĂ¡ Lopes

A outra face do Diabo.

Poderias tu, mil vezes, expulsar-me de tua presença —

e ainda assim eu permaneceria, como sombra que se recusa a deixar o corpo,

adorando-te através dos séculos que ainda não nasceram.

 

Poderias lançar sobre mim mil maldições,

e meu peito, em vez de temer, aprenderia a sussurrar o teu nome

como uma prece profana, repetida entre os mortos.

 

Mas não me confundas com os tolos que te erguem como deusa intocável,

que cegos declaram: “Em ti não há falha alguma.”

São eles os primeiros a condenar ao fogo

aquilo que ousa não ser divino.

 

Eu não.

 

Eu vejo tuas imperfeições —

e é nelas que reside tua verdade mais cruel e mais bela.

És falha, és carne, és erro…

e ainda assim, és aquilo que me arrasta para além de mim.

 

Pois entre todas as formas que o mundo insiste em repetir,

há algo em ti que rompe —

um desvio sutil, um abismo silencioso:

 

o teu olhar.

 

Nele, encontro minha ruína e minha rendição.

É nele que me perco sem desejo de retorno,

como quem contempla o próprio fim e o aceita.

 

E se o destino exigisse meu último suspiro

para te conceder apenas mais um dia sob este céu moribundo,

eu o entregaria sem hesitar —

 

mesmo sabendo

que esse dia jamais seria meu.