Onde estão os corvos de Lisboa?
Onde estão os que eu via saltitar no passeio,
junto à tasca do Sr. Hipólito, na Mouraria,
onde os homens se iam embebedar à tarde,
depois de saírem do trabalho?
Onde estão os corvos que subiam os degraus da Sé
e comiam pedacinhos de pão atirados pelas beatas,
pelo coxo que pedia esmola e pelo cura?
Onde estão os corvos que eu via na margem do Tejo,
em despique com as gaivotas e os pombos?
Onde estão?
Onde estão os corvos de Lisboa?
Agora só os encontro no brasão da cidade,
em bonecos nas lojas de souvenirs
e nos postais ilustrados,
sob o som monótono do rodado dos tróleis dos turistas.
Que São Vicente os proteja e os traga de novo,
os corvos de Lisboa.
Do livro \"Poemas para a hora de Ponta\", ed. Cordel de Prata, Lisboa, 2019