Eu já reparei
que as mais belas canções de amor quase sempre nascem
de extremos
de quem foi profundamente amado
ou de quem aprendeu a amar
na falta
Como se sentir demais
fosse pré-requisito
pra virar música ou poesia
Mas ninguém fala
do que vem depois
quando o amor não explode
nem falta
quando ele não pede palco
nem vira ausência
só fica
E eu tenho aprendido isso
devagar
quase sem perceber
que o amor também pode existir
sem urgência
como algo que permanece
mesmo quando tudo em mim
não consegue
Tem dias em que minha mente
se desfaz em ruído
e ainda assim
há algo em você
— ou no que é nosso —
que não me deixa ir tão longe
como se eu ainda coubesse
em algum lugar
Mesmo quando eu sinto que não pertenço a lugar nenhum
Mesmo quando o planeta em sua grandiosidade
parece pequeno demais para mim.
E é estranho
porque não é sobre cura
não é sobre desaparecer
com aquilo que em mim pesa
Mas entre nomes difíceis
rotinas que eu preciso seguir
e comprimidos que organizam
o que eu não consigo
existe um tipo de amor
que não me salva
mas me sustenta o suficiente
pra que eu continue
E talvez
se existisse uma canção
sobre isso
ela não seria a mais intensa
nem a mais bonita
mas seria a mais verdadeira
porque falaria de um amor
que não vem do excesso
nem da falta
mas da escolha silenciosa
de ficar
mesmo quando
eu mal consigo.