Eu me apaixonei pelo que eu inventei de você.
Não por você de verdade,
mas pela versão que eu construí sozinho, no escuro do meu peito.
Você era perfeita na minha mente.
Ria do jeito certo nas horas certas,
entendia meus silêncios sem eu precisar explicar,
me olhava como se eu fosse o único homem no mundo,
não tinha defeitos que machucassem,
só virtudes que eu colecionava como troféus imaginários.
Eu te via forte quando eu tava fraco,
carinhosa quando eu precisava de colo,
leal quando o mundo inteiro mentia.
Eu te via voltando pra mim toda vez que eu fechava os olhos,
dizendo “eu também te amo” sem eu ter que pedir.
Eu te via me salvando de mim mesmo,
sem nunca cobrar o preço.
Mas aí você apareceu de verdade.
E a realidade veio como tapa na cara.
Você não era a poesia que eu escrevia.
Você tinha dias ruins que não cabiam no meu roteiro.
Tinha silêncios que não eram carinhosos, eram frios.
Tinha ausências que não eram saudade, eram escolha.
Tinha defeitos que eu fingia não ver,
e verdades que eu não queria ouvir.
Eu me apaixonei por um fantasma.
Por uma sombra que eu pintei com as cores que eu queria.
E quando o fantasma sumiu,
quando você mostrou quem realmente era,
não sobrou nada pra amar.
Porque o que eu amava nunca existiu.
Era só eu, conversando comigo mesmo,
me iludindo com ecos que eu mesmo criava.
Agora eu fico aqui, olhando pro teto à noite,
tentando lembrar o gosto daquela ilusão.
Mas ela escorre pelos dedos como areia.
E as lágrimas vêm sem aviso,
quentes, pesadas, idiotas.
Porque dói perder alguém que nunca foi real.
Dói mais do que perder quem existiu de verdade.
Porque com quem existiu a gente pode brigar, odiar, superar.
Mas com o que a gente inventou...
não tem como lutar.
Não tem como voltar.
Só tem como chorar pelo que nunca aconteceu.
Eu me apaixonei pelo que eu inventei de você.
E agora eu tô pagando o preço de amar um sonho
que acordou antes de mim.
E eu fico aqui, sozinho com as lágrimas,
perguntando pro vazio:
como eu me desapaixono de alguém que nunca existiu?